Me lembro, na época do colégio, da dificuldade de uma garota americana em pronunciar as palavras "isqueiro amarelo". Lembro-me da maestria com que ela pronunciava a palavra "world", torcendo a língua para aquele R com uma destreza que jamais terei. Mas a habilidade era inversamente proporcional quando se tratava dos fonemas de R entre vogais: " is-quei-go, a-ma-le-lo". A tarefa de concavar a língua e tocar o palato frontal travava sua prolixez ébria e a pronúncia não saía. A gente se divertia com a dificuldade dela, nas tardes de juventude no bar da esquina.
Daquela época, quando matávamos aula como se não houvesse amanhã, me recordo dos papos de bar. Bebíamos cerveja, jogávamos truco e fumávamos cigarros, acesos com o isqueiro amarelo. Ivan, namorado da gringa e dono do isqueiro, tinha uma teoria sobre isqueiros e canetas Bic: eram objetos de um mundo paralelo, pois jamais tinham fim. E interrogava desafiante: "alguma vez uma caneta Bic acabou na sua mão? e um isqueiro?". Verdade, eu sempre perdia isqueiros e canetas antes mesmo que pudessem se terminar em minhas mãos. Além de ganhá-los de diversas formas: deixados na mesa, guardados no bolso, enfiados no maço. Vinham com seus diferentes níveis de gás, e nunca acabavam. Ás vezes eu chegava a ter três isqueiros comigo, e amanhecia sem nenhum. O mesmo com as canetas. Iam se acabar longe de mim.
E no mundo paralelo onde vivem os Bics, um isqueiro vazio se transformou numa caneta cheia.
domingo, 23 de janeiro de 2011
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