terça-feira, 4 de setembro de 2012

A paz do condenado.

Outro dia tomei conhecimento de um projeto chamado "Last Meal", que compila fotos da última refeição de prisioneiros condenados à morte.

O que mais me chamou a atenção não foram as fotos ou o projeto em si, mas sim tomar conhecimento  dos pedidos destes condenados. Eles vão morrer dali algumas horas, e ainda assim pedem bifes, batata-frita, salada, sorvete, bolo, torta de limão. Eles vão morrer mas tem apetite.

Este fato me tocou profundamente, pois almejo essa paz de quem vai morrer mas ainda assim tem desejos.

Acho que a vida é isso. Somos todos condenados pela nossa condição humana e falível, mas ainda assim temos que considerar e respeitar nosso apetite.

Eu quero poder lidar com minha incompletude, minhas falhas, minhas maldades, minhas dúvidas; e ainda assim ter paz. Eu quero me saber mortal e poder pedir batatas-fritas, em paz.

Já não sinto mais um frio na barriga ao pensar de onde viemos. Eu não quero saber de onde viemos nem para onde vamos, não me afeto com a imprecisão sobre a origem do universo, não me incomodo com a dúvida de qual o meu papel na Terra, não quero glorificar minha existência. Aceito as incertezas da vida, a falta de coerência e sentido, o acaso e o erro. Eu não me importo mais com aquilo que não tem nome, nem nunca terá.

Como uma condenada, quero apenas manter meu apetite, e serenidade e paz para saciá-lo.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Donas do Mundo. (será?)

"...as mulheres das faixas mais esclarecidas são hoje, além de donas do seu próprio nariz, comandantes deste navio que chamamos de sociedade. Se tomarmos como exemplo uma jovem de classe média do eixo Porto Alegre-São Paulo-Rio de Janeiro, é fácil identificar tal poder. Essa moça esclarecida tem hoje diante de si as chances e o direito de ser feliz como bem entender. Tudo lhe é permitido. Ela pode ser cientista, economista, advogada, empresária, ministra de Estado, ginasta, lutadora de judô, atriz, dançarina, modelo, soldado do Exército, policial, juíza, prefeita, governadora ou presidente da República. Pode ser mãe de um, dois, três, quantos filhos quiser – ou de nenhum. Pode fazer uma produção independente, usando um homem de carne e osso ou o banco de sêmen, ou ser mãe aos 60 anos." (Rogério Simões, editor-executivo de ÉPOCA)

Por um momento chego a achar risível esse tipo de comentário, até vejo graça. Mas a verdade é que sinto-me angustiada com estas constatações repetidas do "poder da mulher". É que como mulher, realmente não consigo me identificar com esta posição. Entendo sim que as conquistas femininas foram inúmeras, mas isso não nos dá poder supremo. É como estar se afogando: quando eu consigo chegar a superfície, botar a cabeça para fora dágua e respirar, eu apenas parei de morrer, mas não significa que consigo voar.

A sensação que eu tenho é que esta emancipação feminina (que apenas conseguiu igualar alguns direitos, nem masculinos nem femininos, simplesmente humanos) é alçada a uma condição de super poderes, de onde conclui-se que as mulheres então dominaram o mundo. Mentira.

Os homens continuam sendo os seres convexos, as mulheres continuam sendo côncavas, e a questão é que não há um mais poderoso que o outro. A graça da vida continua sendo a combinação dos dois, o encaixe. Por mais confusão e ruído que exista mundo afora, acredito ser simples assim a nossa realização como seres humanos. Pode soar careta, mas para mim é muito verdadeiro. Homens e mulheres, precisamos uns dos outros, isto basta para nos igualar em condições.

Sobre estes super poderes….eu até gostaria que fosse assim. Eu ter as rédeas, eu comandar, eu escolher, eu descartar. Soa mesmo tentador. Mas a grande verdade é que após tantos avanços e tantas mudanças nestes últimos 100 anos, eu continuo querendo encontrar um parceiro para toda a vida, continuo querendo um bom pai para meus filhos, continuo querendo constituir uma família. Continuo querendo seduzir um homem, continuo esperando a ligação no dia seguinte, continuo acreditando que pode haver amor. E sigo me decepcionando, sofrendo por paixões não correspondidas, partindo meu coração, derramando lágrimas. Isso é ter poder?

Também quando converso com outras mulheres, as supostas Valquírias deste fantasioso exército que subitamente assumiu o poder, (estou começando a achar que isso é truque masculino de quem não quer mais as responsabilidades e obrigações para si e resolve então dourar a pílula para que Eva a engula: "olha, agora o poder é de vocês, uau!". Aham.) não vejo mulheres poderosas, decididas e com rédeas nas mãos. Vejo mulheres confusas, sobrecarregadas, e no íntimo buscando apoio, ajuda, carinho e amor. Vejo mulheres que continuam lutando para manter um homem, ou tentando arduamente conquistar um. Vejo mulheres que continuam sendo traídas, vejo a multiplicação de mães solteiras, vejo mulheres sendo descartadas, trocadas por "algo" melhor. Ouço mulheres implorando por um relacionamento, e brados apavorados: "não existem mais homens no mundo!"

As mulheres, aliás, nunca estiveram tão sem poder quanto nos dias de hoje. Perderam conexão com seus instintos e a natureza. Há mulheres ausentes, que parem sem nem se saberem grávidas, que agonizam de fome em nome da imagem, que, sozinhas, enrijecem e esquecem de ser a espuma do mundo.

No meu entendimento, se existe um poder, é aquele que determina a união ou a separação dos sexos no caminhar da vida, que determina se um casal irá encarar junto ou individualmente as adversidades da existência. E na minha opinião, este poder está na mão dos homens. Eu realmente não sei quem é essa mulher que intimamente quer comer e descartar homens, ter filhos sem pai, trabalhar loucamente para ser poderosa, engravidar aos 60. As mulheres que conheço podem votar, podem trabalhar, podem ser defendidas na justiça e algumas até conseguem igualar seus salários aos dos homens. E mesmo com "tudo" (sic) isso, continuam esperando o cara que vai querer um relacionamento, namorar e casar. Um homem que queira sim assumir um compromisso.
E, até onde eu sei, eles sempre dizem não.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Leão Marinho

Acho que era o quarto ou quinto encontro, havia dois meses talvez.

Darlene rebolava e roçava seu corpo roliço e macio naquele corpanzil suado, quente, vibrante de Alcebíades. O rapaz puxou-a para um canto da boate. A música estava alta, disse em seu ouvido: "então, precisamos conversar sobre estes beijinhos". Conversar? - pensou ela. Ele prosseguiu: "É que eu não sou de ninguém. Eu não me comprometo".

Darlene ainda em broto se quebrou.

Ficou ali sem saber ao certo o que fazer. Como ela poderia prometer ou comprometer algo? Ela poderia dizer do próximo minuto (queria ele!) mas do amanhã? Do depois? Que presunção é essa de querer definir coisas? Em sua espontaneidade Darlene não teve respostas. Sentiu-se nua, "eu não sei o que dizer". Constrangida, retirou-se.

E nunca mais se disse nada.

(um pássaro sobrevoa e gorgeia: "ainda era construção mas já virou ruína")