quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Comunicação: um elemento feminino na web

Não pude deixar passar batido o comentário citado aqui de manhã, sobre as garotas mandarem na Web. "Ué, não foi o que eu vi na Campus Party" – pensei na hora, local onde a grande maioria das pessoas eram garotos. De fato, esta tendência masculina é comprovada quando analisamos o mercado de trabalho. De acordo com o Escritório de Estatísticas do Trabalho de NY, o desequilíbrio entre adultos na indústria de computação é grande. As mulheres detêm cerca de apenas 27% dos empregos nas ocupações de computação e matemática.

Então como assim a Web é das garotas???

Aprofundando o tema, vejo do que se trata a colocação: conteúdo. As garotas adolescentes produzem, percentualmente, muito mais conteúdo do que os garotos, na forma de blogs, sites pessoais (para si e para os outros) e criação de perfis em sites de redes sociais. Não é de se estranhar, afinal estamos falando do bom e velho diário (ou agenda) repaginado, uma cultura típica das meninas, seres que por natureza adoram falar, comentar, dividir. J A boa nova é que com a internet este diário pode ser compartilhado infinitamente, fomentando uma rede de troca de experiências e apoio entre as garotas adolescentes, criando um rico acervo de cultura feminina na Web.

Além de fazer as vezes do diário, as páginas pessoais (site, blog ou perfil) funcionam como um instrumento de identidade das garotas. Ali é como elas se mostram ao mundo, de um jeito único e exclusivo.

Ou seja, contar causo pela internet duplica o poder de expressão da mulher J

Esse desejo de expressão visual fica evidente quando as meninas criticam farsantes online que essencialmente roubam o conteúdo de suas páginas e gráficos fazendo hotlinking (um link para a imagem de outra pessoa de forma que aparece na própria página). Além de sobrecarregar as linhas de comunicação, é o equivalente digital de chegar a uma festa usando o mesmo vestido que outra menina.

Não é de espantar que as meninas façam advertências agressivas em seus sites, como: "Não copie, roube ou redistribua nada das minhas coisas!" ou "Faça um hotlink e morra."
J

Vejo que as garotas dominam a web no quesito criação de conteúdo, e ainda sim vemos que se trata de um conteúdo um tanto particular e nada técnico. O porquê destas garotas não permanecerem no ramo na computação quando adultas pode ser explicada pela frase de Jane Margolis, autora de "Unlocking the Clubhouse: Women in Computing": "apesar de as meninas dominarem programas como Paint Shop Pro, há uma profunda distinção entre usar softwares existentes e o desejo de inventar novas tecnologias."

Seja qual for a razão, fico feliz de perceber que, sorrateiramente, a cultura feminina registra e garante a perpetuação de sua sabedoria neste território livre e democrático que são as páginas da web. Que este conhecimento seja duradouro, ou, até a próxima inquisição! ;-)

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Cobertura Campus Party

Depois da enxurrada de estímulos recebida em 2 dias de Campus Party, passei o final de semana digerindo a batelada de novidades e informações. Duas tendências ficaram retumbando, divido aqui para os que não puderam acompanhar o evento refletirem também.

1. Interatividade não por mera interação. Interatividade é colaboracionismo, troca de informação, aprimoramento e evolução. Uníssono em praticamente todas as palestras, - desde Maddog, ativista do Linux; aos hackers - todos defendem a necessidade de esta interação coletiva livre - ou seja, todo tipo de redes - ser um instrumento de aprimoramento do conhecimento, através da colaboração entre seus membros. Este conceito, apesar de aplicável a qualquer campo do conhecimento humano; aqui é de trazido à luz no contexto da tecnologia, afinal estamos falando de geeks e nerds. Para esta "lapidação coletiva" do conhecimento ser possível, pressupõe o fluxo livre de informações, proposta que vai contra a ordem vigente relativa ao tipo de tecnologia (software) que adotamos. A grande maioria são softwares proprietários, cujo código não divulgado impede que qualquer pessoa possa contribuir para o aprimoramento destes, pesquisando e descobrindo falhas, bugs e upgrades. O bloqueio do fluxo da informação torna o desenvolvimento do software mais lento, gargalando a evolução da tecnologia. (Aqui um parêntese: quantos gargalos não são criados em nosso dia-a-dia por falta de deixar fluir mais a informação?). Este colaboracionismo também ficou evidente na palestra de Steven Johnson, considerado um dos mais importantes estudiosos da cultura digital. Citou um exemplo cotidiano: a descoberta de que o cólera não vinha do ar mas sim da água veio do cruzamento de informações, entre as comunidades que se conectaram, percebendo que as pessoas que morriam da doença eram aquelas que viviam próximas a reservatórios de água nas cidades. Interessante, não? A ordem aqui é dividir o conhecimento. A máxima que ouvi a esse respeito, vinda de um dos organizadores do evento foi: "se você tem uma maçã e eu tenho uma maçã, e a gente trocar; você fica com uma maçã e eu com a outra maçã. Se você tem uma idéia e eu tenho outra idéia, ao final, quando a gente trocar, você vai sair com duas idéias e eu com duas idéias." Na era da informação e do conhecimento, a ordem é dividir para somar. Faz sentido, não? ;-)

2. Software como serviço e não como produto. Este é o lema dos defensores do Linux. Nós temos mania de pensar em software como produto, né? Compramos o tal pacote, bem tangível (dá até para embrulhar para presente!), e nos acorrentamos para sempre à sabedoria de uma companhia, que será a única responsável pela evolução daquele "produto", com seus pacotes de atualização. Enquanto isso inúmeros softwares livres são disponibilizados (e, aprendi lá, livre não quer dizer gratuito), que permitem que todo o resto da humanidade possa colaborar com seu desenvolvimento, pois os códigos são abertos e divulgados e estão a serviço de todos. Ou melhor, todos a serviço deles :-) A idéia é que o software seja um mero prestador de serviço, para o armazenamento, manuseio e troca de informação, seja ela qual for, aquela que lhe aprouver (texto, imagem, dado, voz). O software é somente um meio; mantido e aprimorado pela coletividade. Parece um raciocínio um tanto tribal, meio comunista – na verdade uma auto regulação de uma sociedade nova, interconectada e colaborativa - mas no meu entender o que está sendo proposto aqui é acessibilidade. Softwares livres prometem ser mais baratos e mais simples. Aparentemente, enquanto vivemos a ilusão de "adquirimos um produto", a velocidade de aperfeiçoamento e a qualidade deste "serviço" chamado software é que estão em jogo. Concluo: maior usabilidade é maior penetração.

Em tempo: a descoberta do protocolo TCP/IP (que permite a conexão entre computadores e viabilizou a internet) é bradada aos quatro cantos da Campus Party como exemplo de atitude colaboracionista, pois seu código foi mantido aberto e rapidamente evoluímos nesta tecnologia. Sem barreiras, em poucos anos construímos a gigantesca world wide web, promovendo a revolução digital. Hoje todos têm acesso livre à internet. Seu criador poderia ter ganhado rios de dinheiro se mantivesse o código como proprietário – e estaríamos na idade da pedra com relação à internet - mas preferiu manter a postura de livre fluxo de informação. Soa kamikaze frente a uma realidade de mercado capitalista, mas esta parece ser a atitude da nova era. O ganho deve ser coletivo. Dividir para somar.

Depois de viajar o pensamento anos luz neste futuro, volto ao presente e revejo nossa troca de informação - muitas vezes precária, mesmo a cotidiana - e nossos softwares proprietários, cheios de bugs e telas azuis. Penso nas licenças, nos direitos autorais e na pirataria. Liberdade, acessibilidade, fluxo livre de informação... Será possível controlar este movimento? E mais: é aí que devemos empregar nossa energia? Na proibição e no controle?

A Campus Party mudou meu eixo de entendimento de valor desta nova era. São novas regras. Não é o código, é o que você faz com o código. Não é a música, é o que você faz com a música. Não é a idéia, é o que você faz com a idéia. Acesso a informação e conteúdo é direito (e dever) de todos na sociedade digital. Ganhar dinheiro com isso são outros quinhentos. Pensar desta forma parece assustador, mas abre inúmeras possibilidades. É ver pra crer.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Uma tarde no Campus Party: relato de uma leiga

Ontem passei uma tarde no Campus Party, dando uma volta pelo futuro. Fiz um apanhado geral e tento dividir aqui, para que mais pessoas, talvez leigas como eu, tenham noção deste universo que nos parece à vezes distante, um tanto misterioso, quase subterrâneo. Pois os geeks e nerds desentocaram. :-)
Imagine o pavilhão da Bienal no Ibirapuera. (Se você é afeito a Bienais, SPFWs ou feiras em geral sabe bem como é o prédio). No térreo, na entrada principal, ficam os stands de patrocinadores e lanchonetes. Ao centro, demonstrações de engenhocas em diferentes stands, entre elas uma surface (tipo a da Microsoft) com jogos, softwares de desenho e manuseio de fotos; e outra surface "musical", onde a disposição de peças de acrílico na superfície dão as notas musicais. O movimento e interação das peças compõe novos sons, um verdadeiro fazedor de música high tech, muito geek :-) E tudo está ali para ser manuseado pelo público, afinal interação é palavra de ordem por aqui.
Subindo a rampa chega-se à área restrita aos pagantes do evento e jornalistas. O mezanino, onde normalmente fica a Sala de Imprensa em feiras na Bienal, é o refeitório. Ali funciona o restaurante que atende os campuseros. Escada rolante e chegamos ao primeiro piso, o principal, onde fica o "aquário" reservado aos jornalistas. Todo o andar é tomado por grandes bancadas coletivas do lado esquerdo, e palcos do lado direito. Sobre as bancadas banners indicam os temas, para as comunidades geeks organizarem-se por afinidade: robótica, softwares livres, simuladores, games... Para cada "grupo temático" no lado esquerdo do pavilhão, há um palco discorrendo sobre o mesmo tema, que fica do lado direito. As palestras são muito interessantes. Assisti um debate no palco principal sobre o jornalismo na era digital, com Pedro Doria, Rosana Applebaun e Heródoto Barbeiro entre outros, mais um grupo de 10 blogueiros. A discussão foi acalorada, confrontando a imprensa oficial x a imprensa informal, realçando a importância da qualidade da informação em ambos os casos.
As bancadas estão tomadas por gente jovem, num Woodstock tecnológico. Sobre elas, máquinas e equipamentos montados pelos geeks, numa grande oficina coletiva. São hardwares em formatos inusitados, computadores "tunados" com as peças mais esdrúxulas (aqui eles falam "modding" - modificação de aparelhos), pecinhas e ferramentas espalhadas. Um assiste LOST, outro baixa arquivos, uma garotinha desenha no Corel Draw. As crianças concentram-se na bancada de games. Os maiores divertem-se com as máquinas. Todos bebem Red Bull. Dois garotos testam o poder de seus robozinhos (um monte de lata com rodinhas e muita tecnologia) dentro de um círculo branco demarcado no chão: quem conseguir expulsar o outro ganha, num verdadeiro sumô. Outro menino brinca com seu robô catador de bolinhas de tênis, que mais parece uma centopéia, enquanto outro pilota um tipo de Robo Arthur gigante (lembram desse?) que toca música. As palestras simultâneas do lado direito, sem isolamento acústico, dão o tom da balbúrdia sonora do evento. Com tantos estímulos ao mesmo tempo, há de se estar multiconectado :-)
E por fim o segundo andar, onde os campuseros descansam (será?) desta maratona. Centenas de barraquinhas azuis oferecidas pela organização são o alojamento dos participantes, e ocupam todo o segundo piso.
O clima é muito amistoso, as pessoas interagem sem grandes barreiras, pareceram-me cordiais uns com os outros e unidos em busca de aprimoramento e conhecimento, seja ele qual for. Toda interação é válida. De saída ainda pude ouvir um campusero, ao dar uma entrevista, dizer que estavam promovendo uma união tecnológica, humana e espiritual :-)
O evento é único, e vale a pena conferir (vai até domingo). O Campus Party me surpreendeu e, por que não?, emocionou. Saí de lá com a confiança renovada no futuro melhor ;-)