Outro dia tomei conhecimento de um projeto chamado "Last Meal", que compila fotos da última refeição de prisioneiros condenados à morte.
O que mais me chamou a atenção não foram as fotos ou o projeto em si, mas sim tomar conhecimento dos pedidos destes condenados. Eles vão morrer dali algumas horas, e ainda assim pedem bifes, batata-frita, salada, sorvete, bolo, torta de limão. Eles vão morrer mas tem apetite.
Este fato me tocou profundamente, pois almejo essa paz de quem vai morrer mas ainda assim tem desejos.
Acho que a vida é isso. Somos todos condenados pela nossa condição humana e falível, mas ainda assim temos que considerar e respeitar nosso apetite.
Eu quero poder lidar com minha incompletude, minhas falhas, minhas maldades, minhas dúvidas; e ainda assim ter paz. Eu quero me saber mortal e poder pedir batatas-fritas, em paz.
Já não sinto mais um frio na barriga ao pensar de onde viemos. Eu não quero saber de onde viemos nem para onde vamos, não me afeto com a imprecisão sobre a origem do universo, não me incomodo com a dúvida de qual o meu papel na Terra, não quero glorificar minha existência. Aceito as incertezas da vida, a falta de coerência e sentido, o acaso e o erro. Eu não me importo mais com aquilo que não tem nome, nem nunca terá.
Como uma condenada, quero apenas manter meu apetite, e serenidade e paz para saciá-lo.
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