domingo, 17 de fevereiro de 2008

Cobertura Campus Party

Depois da enxurrada de estímulos recebida em 2 dias de Campus Party, passei o final de semana digerindo a batelada de novidades e informações. Duas tendências ficaram retumbando, divido aqui para os que não puderam acompanhar o evento refletirem também.

1. Interatividade não por mera interação. Interatividade é colaboracionismo, troca de informação, aprimoramento e evolução. Uníssono em praticamente todas as palestras, - desde Maddog, ativista do Linux; aos hackers - todos defendem a necessidade de esta interação coletiva livre - ou seja, todo tipo de redes - ser um instrumento de aprimoramento do conhecimento, através da colaboração entre seus membros. Este conceito, apesar de aplicável a qualquer campo do conhecimento humano; aqui é de trazido à luz no contexto da tecnologia, afinal estamos falando de geeks e nerds. Para esta "lapidação coletiva" do conhecimento ser possível, pressupõe o fluxo livre de informações, proposta que vai contra a ordem vigente relativa ao tipo de tecnologia (software) que adotamos. A grande maioria são softwares proprietários, cujo código não divulgado impede que qualquer pessoa possa contribuir para o aprimoramento destes, pesquisando e descobrindo falhas, bugs e upgrades. O bloqueio do fluxo da informação torna o desenvolvimento do software mais lento, gargalando a evolução da tecnologia. (Aqui um parêntese: quantos gargalos não são criados em nosso dia-a-dia por falta de deixar fluir mais a informação?). Este colaboracionismo também ficou evidente na palestra de Steven Johnson, considerado um dos mais importantes estudiosos da cultura digital. Citou um exemplo cotidiano: a descoberta de que o cólera não vinha do ar mas sim da água veio do cruzamento de informações, entre as comunidades que se conectaram, percebendo que as pessoas que morriam da doença eram aquelas que viviam próximas a reservatórios de água nas cidades. Interessante, não? A ordem aqui é dividir o conhecimento. A máxima que ouvi a esse respeito, vinda de um dos organizadores do evento foi: "se você tem uma maçã e eu tenho uma maçã, e a gente trocar; você fica com uma maçã e eu com a outra maçã. Se você tem uma idéia e eu tenho outra idéia, ao final, quando a gente trocar, você vai sair com duas idéias e eu com duas idéias." Na era da informação e do conhecimento, a ordem é dividir para somar. Faz sentido, não? ;-)

2. Software como serviço e não como produto. Este é o lema dos defensores do Linux. Nós temos mania de pensar em software como produto, né? Compramos o tal pacote, bem tangível (dá até para embrulhar para presente!), e nos acorrentamos para sempre à sabedoria de uma companhia, que será a única responsável pela evolução daquele "produto", com seus pacotes de atualização. Enquanto isso inúmeros softwares livres são disponibilizados (e, aprendi lá, livre não quer dizer gratuito), que permitem que todo o resto da humanidade possa colaborar com seu desenvolvimento, pois os códigos são abertos e divulgados e estão a serviço de todos. Ou melhor, todos a serviço deles :-) A idéia é que o software seja um mero prestador de serviço, para o armazenamento, manuseio e troca de informação, seja ela qual for, aquela que lhe aprouver (texto, imagem, dado, voz). O software é somente um meio; mantido e aprimorado pela coletividade. Parece um raciocínio um tanto tribal, meio comunista – na verdade uma auto regulação de uma sociedade nova, interconectada e colaborativa - mas no meu entender o que está sendo proposto aqui é acessibilidade. Softwares livres prometem ser mais baratos e mais simples. Aparentemente, enquanto vivemos a ilusão de "adquirimos um produto", a velocidade de aperfeiçoamento e a qualidade deste "serviço" chamado software é que estão em jogo. Concluo: maior usabilidade é maior penetração.

Em tempo: a descoberta do protocolo TCP/IP (que permite a conexão entre computadores e viabilizou a internet) é bradada aos quatro cantos da Campus Party como exemplo de atitude colaboracionista, pois seu código foi mantido aberto e rapidamente evoluímos nesta tecnologia. Sem barreiras, em poucos anos construímos a gigantesca world wide web, promovendo a revolução digital. Hoje todos têm acesso livre à internet. Seu criador poderia ter ganhado rios de dinheiro se mantivesse o código como proprietário – e estaríamos na idade da pedra com relação à internet - mas preferiu manter a postura de livre fluxo de informação. Soa kamikaze frente a uma realidade de mercado capitalista, mas esta parece ser a atitude da nova era. O ganho deve ser coletivo. Dividir para somar.

Depois de viajar o pensamento anos luz neste futuro, volto ao presente e revejo nossa troca de informação - muitas vezes precária, mesmo a cotidiana - e nossos softwares proprietários, cheios de bugs e telas azuis. Penso nas licenças, nos direitos autorais e na pirataria. Liberdade, acessibilidade, fluxo livre de informação... Será possível controlar este movimento? E mais: é aí que devemos empregar nossa energia? Na proibição e no controle?

A Campus Party mudou meu eixo de entendimento de valor desta nova era. São novas regras. Não é o código, é o que você faz com o código. Não é a música, é o que você faz com a música. Não é a idéia, é o que você faz com a idéia. Acesso a informação e conteúdo é direito (e dever) de todos na sociedade digital. Ganhar dinheiro com isso são outros quinhentos. Pensar desta forma parece assustador, mas abre inúmeras possibilidades. É ver pra crer.

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